Céu do Crepúsculo – A Origem de Ciela Salazar

É incrível como um título pode mudar a sua vida antes mesmo de você ter nascido, não acham? Todas as marcas, as cicatrizes que você carrega ainda no ventre de sua mãe, são capazes de definir seu futuro. Será? Será que tudo isso não passa de uma simples desculpa para eliminar ameaças e formar alianças de forma mais rápida? Prever o destino, prever o futuro… Isso se faz através do véu, dos espíritos — não do sobrenome.

Fechada aqui nessa biblioteca, tudo o que faço é ficar por ler, mais e mais sobre o meu povo e me fascinar cada vez mais por tudo… toda a magia envolvida, toda sabedoria de um povo que teria o mundo nas mãos, se não fossem amarrados pela hierarquia interna e a briga por poder intrínseca entre famílias poderosas. Eu fico sem entender porque é que as pessoas se enfrentam ao invés de unir forças. Por que é que é tão importante provar superioridade perante aos outros, quando já se tem tanto? Por que querer mais sozinho?

É difícil provar para as pessoas o quanto nada faz sentido, na arte de segregar tão idolatrada por indivíduos pomposos de grandes sobrenomes de cinco letras. É eu sei. Você provavelmente não quer falar sobre isso. Você, como muitos outros, prefere fechar os olhos para o que acontece com aqueles que não têm a sorte no sangue, no nome ou na herança. Você, como tantos, já se acostumou a viver para servir e não se importa em limpar o chão que os outros sujam, de novo e de novo sem lembrar que não foi você quem sujou. Já se acostumou com a falta de reconhecimento e não quer de forma nenhuma interferir ou se meter com aqueles que você sabe que podem te destruir por uma simples atitude audaciosa. Por estarem acima da lei ou de qualquer outra coisa que deveria estar te protegendo, mas não está, porque tudo é uma mentira criada por aqueles que têm poder. Você é um dos que convive com a mentira, se torna parte dela porque acha que não tem poder o suficiente para destruí-la. Eles te fizeram acreditar que você não tem poder algum, caracterizado como “normal”, “mundano”, “comum”, “Pobre”. Você tem medo.

Você tem medo de não ser você mesmo quando acorda de manhã, por quê? Por que não luta pra ser você mesmo todo o dia sem precisar se esconder por trás de uma máscara de mediocridade que lhe foi dada para te fazer de palhaço e te marcar como serviçal do Império? Eu sei, eu sei. Foi uma pergunta retórica. Todos respondem “Não dá…” ou “Você é louca” ou “E você? Não tem medo?” e eu digo que não. Não tenho medo. Na verdade, a minha luta é erradicar esse medo em pessoas como você. É trazer a tona toda essa inferioridade no qual vivemos e mostrar pra todos que somos maiores do que nos permitem ser. Que no mundo, não existe força maior do que a união e não o contrário. Entende o que quero dizer? Você é muito maior do que pensa. Todos são. Humanos, elfos, anões, gigantes, cães e gatos — a grandeza da alma é equivalente em todos os seres.

Eu estudo aqui nessa biblioteca, todos os dias, para entender o que se passa de mais verdadeiro entre as gerações. Para entender o laço que nos torna irmãos, para tecer uma conexão com o véu e assim poder enxergar no olhar de cada um a importância que terá no tempo e espaço — porque todos têm. Fascina-me o poder do meu povo de saber adiante, de saber o depois e o além. Fascina-me, em si, todo o meu povo. Porém me entristece que estão perdendo a essência do que de melhor há entre nós por algo tão pequeno como a monopolização de poder. É triste, não acha? Não precisa responder.

Eu fui rejeitada pela minha família ao nascer. Minha mãe, cega pelo medo de perder o que julgava mais importante em sua vida, me descartou ainda bebê, sem sequer querer saber qual seria meu papel nesse mundo. Minha irmã gêmea parecia perfeita, ela não precisaria de mim, não é mesmo? Solara tinha magia nas veias — e eu não. Solara seria a herdeira — e eu não. Solara honraria o nome da família — e eu não. Porque eu não tinha a magia nas veias. Uma pena. Tenho magia na alma.


© Charlie Bowater

Repúdio a todos os que não vêm valor em outra criatura. Repúdio a mim, que não vê valor nas pessoas que não veem valor. O inferno, a quem segrega e humilha. Todos merecem o paraíso.

– Já terminou?

Olhei-o de esguelha. É eu havia me deixado levar de novo. Eu adorava aprender magia com Kranky, mas ele sempre dizia que eu me distraía demais. Eu tinha que livrar minha cabeça de todos esses pensamentos ruins senão tudo podia dar bem errado.

– Pegue o grimório novamente. Leia com atenção. Não se perca em devaneios.

Com um aceno de cabeça, sentei de volta a mesa e peguei o livro. Tentei me concentrar dessa vez e não me distrair com o acervo em élfico ao lado.

– Agora levante-se, pirralha, e congele a estante. Equilibre-se, não a exploda. Lembre-se que o lugar abrirá amanhã.

O fato de usarmos clandestinamente a biblioteca fechada no meio da noite, deixava as coisas mais complicadas. Eu tinha que usar magia e não podia deixar sequelas pelo lugar. Você não imagina o controle que isso exige.

Fiz o que ele disse. Não tinha sido difícil. Já tinha feito isso algumas várias vezes. Kranky já dizia a algum tempo que eu estava quase pronta e não precisaria mais das aulas dele.

– Muito bem, menina estrelada — ele deu com o cajado em minha cabeça — Acredito que não precise mais de mim. Pelo menos não com relação à magia. É suficiente já. Você deve aprender agora a evoluir sozinha.

– Já posso entrar na guilda?

Essa não havia sido a primeira vez que Kranky havia passado um tempo me escutando reclamar do estado da sociedade atual. Ao longo de nossas aulas de magia, ele mencionou uma Guilda — Krono. Conhecidos como os destruidores de coroa, era uma guilda com os ideais que eu partilhava: ódio à nobreza e igualdade a todos. Era tudo o que eu tinha procurado em toda minha vida: uma forma de contribuir para toda essa desgraça de hierarquia termine, além do que, poderia ser um caminho para eu me preparar e voltar até minha cidade de origem. Voltar, junto com a revolução.

– Não menina. A guilda mata. Para ser parte da guilda, você tem que matar. Acha que tens o que é preciso?

– Não é problema pra mim.

– Oh? Cuidado com esse ódio, elfa. Ele vai te fazer acreditar que podes fazer de tudo, mas não se perca. Abrace aquilo em que acredita.

– Não matarei por ódio. Matarei por justiça, certo? Dê-me um nome.

– Ah, isso não é assunto pra hoje. Vá dormir, amanhã saberá o que fazer de um jeito ou de outro. Se demorar um pouco mais pra voltar pra casa, seu papai vai estar acordado e vai descobrir que linda filhinha adotiva dele anda brincando com magia e seu tutor assassino.



© Throne Of Glass – Sarah J. Maas

Eu peguei meus livros e saltei pela janela, antes de ver Kranky desaparecer como uma nuvem. Da primeira vez impressionou, agora só parecia exibição demais.

Desde que minha mãe me descartou, tive a sorte de chegar viva até a praia onde meu pai me achou. Bem, eu o considero meu verdadeiro pai, a pessoa que realmente cuidou de mim por longos vinte anos. A Padaria Salazar foi meu lar desde então e eu não poderia ser mais grata. Confesso que anos trabalhando aqui cansam a beleza, mas agora uma nova fase está começando pra mim. Poderia trabalhar na guilda e continuar na padaria como disfarce. Todos me conheciam por aqui e sabiam o gosto dos meus bolinhos e doces, não gostaria de parar de supri-los. São boa gente, que merecem bolinhos quentinhos todos os dias (embora eu já tenha dado anos de prejuízo a meu pai por viver dando alimento de graça a pedintes e animais).

Eu o amo, meu pai. Ele me ensinou o que é justiça e ordem e a arte de compartilhar. “Tudo o que você der ao mundo, o mundo te dará de volta”, ele sempre dizia. Eu só tinha um pouco de pena dele por ter que lidar com o idiota do Abraham.

Falando nisso… Ele tem sumido mais que o comum ultimamente. Abraham é meu meio-irmão problemático, ingrato e metido a rebelde “não-ligo-pra-nada”. Desde quando éramos crianças ele nunca pareceu gostar de mim, creio que por ciúme do papai ou simplesmente por eu ser uma garota. Ele conseguia quebrar as barreiras da ignorância e meu pai se entristecia muito com o fato de ele aparentemente não me aceitar como irmã. Nunca fui agredida nem nada do tipo, mas ele claramente me desprezava. Era difícil conviver na mesma casa que ele, mesmo com apenas três anos de diferença entre nós — graças aos deuses, ele saía muito, pois o sentimento era recíproco. Um verdadeiro idiota ingrato. Já disse isso?

Ele sempre foi muito misterioso com relação a tudo o que faz. Papai, há muito tempo, já tinha desistido de pedir satisfações e só rogava todas as vezes que ele saía, para que ele não se desviasse do caminho da luz. Eu, por outro lado, sempre fui muito obediente e gostava muito de trabalhar na padaria, o exato oposto de Abraham. Desde quando éramos crianças, ele odiou aquele lugar. Assim que julgou-se adulto o suficiente para tal, passou a sair bem cedo, antes do expediente e só voltar após o final dele para fugir do trabalho, e desde então só o ouvimos sair de manhã e bem raramente o vemos chegar à noite para dormir… Da ultima vez, ele estava irritadiço e só me encarou e bateu a porta, como de costume. Mas eu senti algo diferente nele, embora não saiba dizer o que é. Apesar de ele me odiar, eu não o odeio. Só gostaria de entendê-lo e perguntar uma única vez porque ele fazia aquilo com papai — e porque não podíamos falar sobre sua mãe. Ele deve ter seus motivos, mas isso não me impede de ter vontade de chutar o saco dele todo dia.

Eu subi as escadas para o meu quarto, troquei minhas roupas e coloquei meus trajes de dormir. Enquanto eu escondia os livros e o grimório no fundo falso do armário com muito cuidado e silêncio, aquela familiar sensação de estar sendo observada surgiu, como de costume. Olhar ou não olhar? Olhei.

Abraham e eu nos encaramos por alguns segundos. Eu não disse nada.

– Quero bolinhos. Pode fazer bolinhos?

Eu não disse nada.

– Aqueles de baunilha com canela. — Ele recostou no batente da porta.

Eu não disse nada — enquanto terminava de escorregar o fundo falso do armário com precisão milimétrica e sem movimentos bruscos.

– Sem cereja. – Completou, me encarando.

Depois de alguns segundos de troca de olhares inexpressivos, beirando o tédio, eu terminei de fechar o fundo.

– É mais de meia-noite, Abraham.

– É mais de meia-noite, Ciela. E não sou eu que estou claramente escondendo coisas por aqui.

Será que ele me viu entrando? Seria um blefe? Não pode ser… ele é muito burro. Ou só uma confirmação pra me irritar? Droga de inexpressividade.

– Tá bem. Farei um só.

– Obrigado.

Levantei-me e desci até a cozinha da padaria, Abraham entrou no próprio quarto. Como eu era idiota… Mas ok, pelo bem da saúde de papai, não criaria intriga com o irmãozinho de madrugada. Mas quem diabos ele pensa que é? Chegando tarde da noite exigindo bolinhos? Ele nunca fez isso. Ele nunca se comunicava comigo se não fosse necessário. Seriam necessários os bolinhos? Será que ele envenenaria alguém com bolinhos? Ou ele comeria os bolinhos com drogas? De fato, parando para pensar bem agora, esse sabor de bolinho sempre tinha menos que os outros de manhã… Uau, agora se sabe pra onde vão. Não custa pedir, pelo amor dos deuses?!


© Mina Lee

Esses bolinhos de baunilha com diferentes coberturas faziam sucesso na padaria. Foi uma receita que achei no fundo da gaveta da cozinha e reproduzi mudando alguns poucos detalhes, quando eu tinha 12 anos. Parecia que muita gente tinha gostado dos bolinhos voltarem a ser vendidos e foi aí que papai percebeu meus dons de culinária. Inventei vários novos sabores e coberturas pra eles e os incorporei também como cobertura de bolos-de-copo. O meu favorito era o de cereja com canela. Abraham odiava cerejas. Não sei como alguém pode odiar algo tão doce, brilhante e vívido.

Os bolinhos estavam terminando de assar, depois de um tempinho. Por bem ou por mal, era uma receita rápida. Caprichei na canela e coloquei metade de uma cereja das mais bonitas da fruteira no topo. Coloquei num prato bonito, enfeitei o entorno com canelas em pau e uma flor de baunilha e tampei tudo para levar ate o quarto dele.

Bati a porta que ele abriu quase que imediatamente — apenas o suficiente para passar seu rosto e o prato e um musculoso braço esquerdo delineado por tatuagens extremamente vívidas… aparentemente feitas naquele mesmo dia.

– Obrigado… De novo.

Os mesmos olhos negros inexpressivos bateram a porta. Era incrível o quanto contrastávamos um com o outro. Eu era tão branca, brilhante, munida de azul claro e o cintilar das estrelas em minha pele. Sempre diziam que eu parecia o céu do crepúsculo. E ele era a completa noite sem estrelas no olhar e a pele branca do corpo, quase toda coberta por tatuagens pretas deixava tudo tempestuoso. Analisar tudo isso sempre me fazia pensar que nunca nos daríamos bem…

Já eram quase duas da manhã quando entrei no meu quarto e encontrei um baú enorme, bem no meio dele — tal qual como a janela escancarada e as cortinas voando junto com o vento frio.

Pela pequena fresta na tampa do baú, viam-se estranhas luzes. Corri pra janela, mas não tinha nada nem ninguém nas proximidades, então voltei-me ao baú. Ajoelhei-me à sua frente. Ele era mais comprido do que largo e parecia bem novo e bem cuidado. Não tinha cadeado, só um fecho. Segurando meu amuleto de Aine, eu o abri. E uau.

Dentro, deitadas sobre veludo vermelho estavam duas longas espadas: uma dourada e uma platinada. Toquei-as devagar, e senti exatamente o que imaginava. Elas eram elementais… A dourada era quente, a lâmina com aspecto de chama. A platinada era fria e sua lâmina tinha aspecto de gelo. Eram lindas. O punho de ambas possuía uma joia azul ao centro, em formato de estrela. Lindas. Verdadeiramente lindas.

Só depois de tirá-las completamente do baú e empunhá-las, vi um pedaço de papel ao fundo.

Tinha sido um presente. Muita gente me conhecia por esse apelido e eu não sabia quem o havia criado, mas podia facilmente ser um presente de Kranky. Um presente de formatura, talvez… Ele fingia que não, mas eu sabia que ele gostava de mim. E eu gostava muito dele também — era como um tio pra mim.

O agradeci mentalmente e pressionei o papel contra o peito. E num sobressalto, a porta do quarto se abriu violentamente.

– Eu disse: Sem cereja.

Novamente eu e Abraham nos encaramos por longos segundos. Eu com duas espadas elementais em punho e ele com um bolinho de canela com cereja. Eu não sei qual sentimento estava mais latente: o de satisfação por conseguir tê-lo feito esboçar algum sentimento ou o medo das perguntas que viriam sobre o que eu tinha nas mãos.

– Desculpe. Eu não ouvi.

Respondi, como se a situação fosse cotidiana (era o que ele sempre fazia, afinal).

Ele desviou o olhar para as lâminas, ainda com a expressão contrariada com a qual abriu a porta e sem mais nada dizer, tirou a cereja de cima do bolinho e tacou em mim. Ele tacou logo em mim, conhecida por me movimentar como uma sombra. Eu peguei a cereja com a boca.

– Hmmmm, valeu — Estava me divertindo.

E olha só: ele revirou os olhos. O grande senhor “não-ligo-pra-nada” revirou os olhos. Hoje definitivamente tinha sido o melhor dia. Ele saiu batendo a porta e eu mastiguei a cereja mais satisfatória da minha vida.

Abraham era uma incógnita. Como ele não conseguiu esboçar reação perante objetos tão formosos? Será que não desconfiava de mim? De nada? O que será que ele fazia em seu tempo livre? Ou será que ele simplesmente não tinha o menor interesse no que eu fazia ou deixava de fazer, pelo ódio que nutria de mim? Voto na última opção. Afinal, eu ia levar uma cerejada na face, não fossem meus reflexos e o fato de ele não ligar torna tudo mais fácil.

De qualquer forma, guardei meus presentes de volta ao baú e coloquei-o no fundo falso do guarda-roupa junto com todos os meus outros artefatos mágicos que ninguém nessa casa sabia da procedência — e não saberiam tão cedo.

Colocar a cabeça no travesseiro e dormir, nunca fora tarefa fácil. Minha mente sempre tratava de me lembrar de que enquanto eu tinha sido exilada de meu povo por frescuras de minha mãe, Solara provavelmente estava lá, sustentando e encorpando a ideia imbecil de poderio superior. Estragando toda a riqueza e solenidade da tradição de minha raça, todas aquelas famílias infames. Os irmãos teriam vergonha, os sábios teriam desgosto. Eu só conseguia dormir apertando forte meu amuleto de Aine, a única coisa que carreguei comigo do reino dos elfos, desde ser jogada fora. Ela abençoava meu sonho, com a certeza de que meu lugar era lá e eu adormecia, lentamente, com o piscar das estrelas no horizonte e das estrelas em minha pele.

Um dia serei Rainha. Rainha para destruir a ideia de reinado. Rainha para deixar de ser rainha. Para que a realeza não exista mais. E para que os elfos se lembrem do que realmente importa.